Sobre os rompimentos
Um rompimento dessa magnitude, definitivo e profundo, não acontece de forma impulsiva. Infelizmente, foi preciso vivenciar inúmeras vezes situações de violência emocional, ou mesmo física, abusos, negligências, descasos, indiferenças. Ou seja, para quem rompe não é “do nada”. Não foi do dia para a noite. E, sem dúvida, não é uma decisão que se toma sem estar consciente das perdas envolvidas, da dor, do peso que carrega a escolha de, talvez, caminhar sozinha.
Manuela Pérgola
10/30/20264 min read
Quando alguém passa uma vida tentando ser compreendida, amada, reconhecida, vista e, depois de muito tempo - de reflexão, sofrimento, um processo de análise, um tratamento psiquiátrico, ou mesmo uma situação-limite em que a pessoa se vê mais uma vez no mesmo lugar - decide romper com relações que nunca estiveram dispostas a compreender, reconhecer, enxergar as reais necessidade daquela pessoa, um mar de sentimentos, contraditórios e complexos, inundam a vida dessa pessoa. Um rompimento dessa magnitude, definitivo e profundo, não acontece de forma impulsiva. Infelizmente, em muitos casos é preciso vivenciar inúmeras vezes situações de violência emocional ou mesmo física, abusos, negligências, descasos, indiferenças. Ou seja, para quem rompe não é “do nada”. Não foi do dia para a noite. E, sem dúvida, não é uma decisão que se toma sem estar consciente das perdas envolvidas, da dor, do peso que carrega a escolha de, talvez, caminhar sozinha.
Além disso, depois da decisão de romper, vem o luto. Um luto não reconhecido, negligenciado socialmente, pois é solitário e, muitas vezes, moralizado: o luto de pessoas que ainda estão vivas. O luto de relações com pessoas que se amava ou que foram amadas um dia, ou um luto pela perda da convivência com outras pessoas muito especiais e que, indiretamente, estão envolvidas nesse rompimento. Um futuro, ou vários, se perde. A idealização que se fazia do amanhã, do que seria a vida com essas pessoas, acaba.
A sensação de alívio vem: sentir os ombros relaxados, não ter crises de ansiedade a cada vez que o telefone toca, poder circular pelo próprio desejo e pelas próprias escolhas sem ser manipulada para ser outra pessoa ou estar em outro lugar, sentir o corpo mais leve pela primeira vez. É até assustador. Ao mesmo tempo, envolve sentir a dor por ter perdido contato com pessoas que não foram as causadoras do rompimento, com quem se tem uma ligação genuína. A dor pela perda da idealização de quem seríamos. São tantas perdas que algumas pessoas podem se perguntar: “vale a pena romper?”. Cada um encontrará a própria resposta e o próprio caminho.
O lado de quem rompe quase nunca é considerado - para não dizer nunca -, e é sempre colocado como uma atitude radical, intempestiva, amargurada ou enlouquecida. Em famílias disfuncionais, exige-se compreensão e perdão de quem é abusado, e geralmente há um pacto de silêncio e partilha com quem abusa. Ou seja, quem está pensando em romper com um padrão familiar, por exemplo, não pode esperar ser compreendido. Quem rompe não recebe acolhimento, cesta de café da manhã, pedidos de desculpa com mudanças de atitude para manter a relação. Quem rompe quase sempre - para não dizer sempre - descobre tarde demais que demorou muito para romper, porque percebe que o modo como sempre foi tratado era realmente o modo como era visto, o lugar em que se colocava e que era colocado. Então, quando sai de cena, quase nada muda, porque quando estava presente era a mesma coisa: também era invisível. Ou seja, o silêncio permanece, e quem rompe tem essa dor para elaborar, também. A constatação de que demorou para perceber a própria importância, de que não deveria ter implorado por amor e reconhecimento (pois são coisas que vêm de graça) e de que deveria ter se importado consigo mesmo em primeiro lugar também são dores a se elaborar nesse processo.
Do outro lado, a parte rompida. Uma, duas ou mais pessoas se unem na surpresa de não ocuparem mais o lugar de destaque. Mas como isso não pode ser admitido, frases como “ela vai se arrepender”, “deve ter enlouquecido”, “alguém a influenciou a fazer isso”, aparecem. São tentativas de explicar o gosto amargo da própria decadência: “Nunca achei que o rompimento aconteceria! Não achei que ela(e) teria tal ousadia, tamanha coragem!”, é a tradução do comportamento passivo-agressivo que assumem com quem rompeu. As mentiras que contam para si mesmos continuam, o show não pode parar: quem fica com a parte dolorida é quem precisa se haver com tamanho descaso. Para a parte rompida, alguma dor pode acontecer: a dor do próprio ego ferido, a dor da queda narcísica, “eu não sou tudo o que achava que era”. O(s) opressor(es) perde o oprimido e com isso perde vantagem, pois a disputa pausa. A competição agora vai ser com quem? Talvez essas sejam as dores da parte rompida. A dor narcísica de quem não assume os próprios erros e não reconhece que, ainda que diga que não saiba, pode ter feito muito mal a alguém, e que isso merece reparação. A dor covarde de quem não tem coragem de enfrentar os próprios demônios e o próprio inconsciente, ao dizer “eu não tive a intenção de te machucar” e, realmente buscar querer saber o porquê machucou alguém ao ponto da outra pessoa precisar cortar o contato para conseguir sobreviver com alguma dignidade.
Parte rompida e a parte que rompe desatam os laços: sejam eles sanguíneos ou não, afetivos, emocionais. Quem rompe entendeu com a própria dor que família não é sinônimo de segurança, apoio, coletividade, amor. Aliás, entendeu que pode ser exatamente o contrário e por isso pode ser tão cruel. Somos avisados desde Caim e Abel. Até rimou.
Então, antes do moralismo barato, antes das frases feitas, antes do julgamento, é preciso entender que a parte que rompe é a que mais sofre. O desejo de quem rompe, apesar de toda dor envolvida, é justamente minimizar o sofrimento, os efeitos do trauma, para que seja possível refazer a vida que restou, e fazer da vida um terreno fértil, com relações arejadas, onde as portas e janelas possam ser abertas e o respeito, a verdade e o diálogo possam, finalmente, circular. Para além disso, que seja possível ser quem se é e orgulhar-se disso.

