nós não seremos compreendidas

A análise pode proporcionar um espaço para a transformação, que não acontece sem passarmos por muitas mortes. A morte é isso que precisamos deixar ir para que sobre espaço para algo se formar novamente. É bonito dito dessa forma, mas nunca passei por nada tão sofrido.

Manuela Pérgola

7/25/20263 min read

Nós não seremos compreendidas. Estou repetindo para que eu mesma entenda e assente essa ideia terrivelmente incômoda dentro de mim.

Por muito tempo, achei que se eu me explicasse direitinho, se fizesse tudo direitinho, se fosse uma boa menina, as pessoas iriam me compreender: meus piores momentos, meus vacilos, meus silêncios, minhas mudanças.

Mas essa é uma inegável - e falida - fantasia infantil: a de que seremos amadas independentemente do que fizermos e de quem formos. A vida não é assim. E a vida não é justa. Além disso, a infância se repete infinitamente para que possamos olhar para isso, elaborar isso e seguir mancando mesmo. Seguir mancando porque seguir sem a garantia de que somos amadas, queridas e de que seremos amparadas sempre que precisarmos é doído, sim. Às vezes é tão doído que dói no corpo. E não, fazer análise não nos impede de sofrer e, em alguns momentos, cair num poço que não parece ter fundo.

A análise pode proporcionar um espaço para a transformação, que não acontece sem passarmos por muitas mortes. A morte é isso que precisamos deixar ir para que sobre espaço para algo se formar novamente. É bonito dito dessa forma, mas nunca passei por nada tão sofrido.

No processo de uma análise, acontecem mudanças. Pode ser que para algumas pessoas elas demorem mais para “aparecer”, e para outras demorem menos. Mas fato é que acontecem. Podem ser mudanças que a pessoa considera pequena, mas que são imensas, considerando que são inaugurais na história de uma família, por exemplo. Às vezes as mudanças de posição subjetiva forçam com que outras pessoas também tenham que rever seus lugares naquela relação, pois a pessoa com quem estavam acostumados a conviver passa a não responder mais da mesma forma.

As mudanças de posição subjetiva são estratosféricas, sejam elas um “não” entalado na garganta há muitos anos que é possível ser dito; um “eu não quero” que marca que ali onde antes só havia passividade tem alguém que também deseja; um “simples” deixar de fazer as coisas “como todo mundo está acostumado a fazer”, porque percebe-se que o jeito comum não é o jeito que traz sentido, alegria e coerência para a vida.

Sejam quais forem as mudanças, nem todas as pessoas que fazem parte da nossa história irão acompanhar, apoiar e/ou entender essas mudanças. Nós não saberemos, muitas vezes, explicar essas mudanças - às vezes só depois de muito, muito tempo, ou só quando se explicar para o outro já não fizer mais sentido. Nesse processo, pessoas ficarão para trás: por nunca terem passado por nada parecido e simplesmente não entender porque de repente você ficou “diferente” (alguns dirão esquisita ou amarga e até louca), ou porque temem as mudanças (e quem não teme?) e não querem olhar para elas, e ver assim tão de perto a lagarta se transformando em borboleta convoca o outro a ocupar um outro lugar também.

É triste admitir, mas algumas pessoas ficarão para trás porque não querem que você mude. Você era melhor e mais fácil de lidar quando aceitava tudo, dizia “sim” para tudo, estava sempre sorrindo e chorando escondida. Algumas pessoas não apoiarão a sua mudança porque lucravam com a sua passividade. Algumas pessoas não tentarão entender e irão te acusar, caluniar, excluir.

Num processo de mudança, muitas vezes intenso, longo e até cansativo pelos quais podemos passar durante uma análise - e durante a vida -, chegará o momento em que nós também nos tornaremos estranhas a nós mesmas. Depois de tanto sofrer repetindo, repetindo, repetindo os mesmos papéis e posições subjetivas, se deparar com um certo vazio que fica depois da mudança - e das perdas inerentes a essa mudança - é digno de luto. É preciso ter paciência, cuidado e coragem para sustentar um lugar que ainda não é um lugar consolidado, lidar com as perdas dos ideais que tínhamos de nós mesmas (e os outros também), ficar com o silêncio. Não seremos compreendidas nem por nós mesmas, pois seremos estranhas. Afinal, quem sou eu quando já não sou aquela que sempre fui?

No fim - se é que há um -, veremos que não há porque pedir e sofrer pela (falta de) compreensão alheia. Nós não seremos compreendidas. E tudo bem, porque se nem eu mesma me entendo o tempo todo, por que pediria isso para alguém? O mais importante é que a vida reencontre a rota que nos leve a viver sendo fiéis a nós mesmas, ainda que com poucas pessoas ao nosso lado nessa jornada. 

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